Boa leitura

O que é preciso para ser um bom treinador (ou gestor, o que é a mesma coisa)?


Quem me conhece sabe que eu gosto de duas coisas: a primeira, de futebol. Muito. E a segunda, de usar alguns exemplos do meu cotidiano e universo para exemplificar algumas coisas que eu sinto. Então, antes de começar o texto em si, vale ambientar aqueles que não acompanham o futebol – e têm um pouco mais de sanidade que nós:

No final do ano passado o Palmeiras contratou um treinador chamado Eduardo Baptista. O argumento era que ele era um jovem treinador, estudado e estudioso, que gastava horas e horas vendo e revendo jogos e debruçado em planilhas e estatísticas para oferecer algo a mais que os treinadores antigos ofereciam. Ele, como outros, buscava modernizar uma profissão conhecida por ser conservadora e usar métodos não científicos. Passados quatro meses e 20 jogos, ele foi demitido.

O que deu errado? Será que foi falta de paciência de torcedores e diretoria? Será que o passional sobrepujou o racional? Onde Eduardo Baptista errou? Tentando entender e discutir isso, apontei 5 erros dele, mas que poderiam ser de qualquer gestor de qualquer empresa em qualquer modelo de negócio, por isso a relevância desse tema aqui, e não em algum blog de futebol:

  1. Ele foi contratado pelo seu currículo acadêmico e não profissional: ele é um profissional com estudo acima da média, certificações e cursos, e por isso acabou sendo contratado, pois isso impressionou os gestores do Palmeiras. No entanto, eles “esqueceram” de checar o seu currículo profissional. Se tivessem analisado com mais afinco teriam visto, por exemplo, que na chance que teve em uma equipe grande, ele falhou miseravelmente. Ou seja, um belo CV cheio de selos e certificações pode esconder um profissional medíocre. Por isso mesmo o bom profissional vai saber tirar o melhor das duas situações – estudo e vivência, e quem o contrata precisa descobri-lo no meio da multidão.

  2. Ele acha que um gestor não precisa saber motivar sua equipe: em uma das entrevistas, nas semi-finais do Campeonato Paulista, ele afirmou que não sabe motivar a sua equipe, que esse não era o jeito dele trabalhar. Nisso ele está completamente errado! Um bom gestor não pode achar que apenas os aspectos técnicos são o suficiente para manter uma equipe motivada e rendendo, seja ela composta por jogadores de futebol ou por profissionais de uma startup. Ele precisa saber sim como motiva-los, entender as suas dores e necessidades, que muitas vezes transcendam o técnico e profissional, e saber usar de artifícios mais humanos e psicológicos para tirar deles o “algo a mais”.

  3. Apenas o estudo não faz do gestor um profissional melhor: Nas discussões sobre o Eduardo Baptista ficar ou sair, o jornalista Mauro Beting disse o seguinte: “Ele é um cara que trabalha bastante, estuda muito, mas chega na prova e tira 4,5”. Ou seja, assim como na escola, na vida profissional apenas ser um estudioso não basta. Muitas vezes o gestor é a pessoa errada na vaga errada, e ele não vai conseguir render, por mais que ele estude e tenha boa vontade. Se eu passar um ano da minha vida estudando física quântica provavelmente vou levar pau numa prova de colegial, pelo simples motivo de que eu não sou competente para tal área. Vejo muitas vezes pessoas dizendo que se você estudar com vontade e afinco vai se tornar especialista em qualquer coisa, e eu me atrevo a discordar. Estudar é importante, mas é apenas uma parte, e como diz um amigo, o pior tipo de burro é o burro estudioso. É doloroso, mas é a realidade.

  4. Não existe hora certa para demitir um gestor: Uma das desculpas que os jornalistas mais usaram é que o Eduardo Baptista não teve tempo para mostrar seu trabalho. Para quem olha de fora, quatro meses pode não parecer nada, mas para quem convive no dia a dia com os profissionais, é uma eternidade. Em quatro meses é possível perceber se o gestor é competente, se se encaixa na filosofia da empresa, se é respeitado e querido pela sua equipe e se dá resultado. E quem está acima desse gestor tem a obrigação de, em ‘apenas’ quatro meses, saber se ele poderá acrescentar algo para a organização, ou se é hora de trocar de gestor. A partir do momento que é constatado que ele não irá render mais do que aquilo, cada dia sem demiti-lo é um dia perdido.

  5. E finalmente, a falha de um profissional não é a falha de um modelo: Não é porque o Eduardo Baptista, profissional, deu errado, que o modelo de treinador estudioso deu errado. Como vimos, são várias variáveis nesse processo, e o bom profissional aprende com os erros. Desta forma, até o próprio Eduardo pode vir a aprender com os seus erros e se tornar um profissional melhor no futuro, do mesmo jeito que outros no mercado estão melhores preparados do que ele, e devem ser estimulados e ganharem a sua chance.

Este é o ponto, a novidade não deve ser sumária e cegamente aceita apenas por ser a novidade, mas ela é importante para oxigenar as carreiras e as próprias organizações. Cabe àqueles que têm a caneta na mão e o poder de contratar saber analisar o que é o melhor para cada situação, e aos gestores, a capacidade de melhorarem a cada dia e não se deixarem levar pela prepotência de achar que o novo é melhor que o velho apenas por ser novo. A coexistência desses dois mundos é o que traz o melhor resultado, sempre foi assim e não faz sentido ser diferente agora.

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